Jean-Michel beaudet








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Jean-Michel BEAUDET


1997 Sopros da Amazônia: as orquestras tulé dos wayãpi. Nanterre: Société d’Ethnologie. 213 pp.

Souffles d’Amazonie : les orchestres tule des wayãpi. Nanterre : Société d’Ethnologie. 213 pp.

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Este livro trata da música da Amazônia. A diversidade musical, nesta imensa região, é tão numerosa e sensível, que fica impossível delinear uma imagem global de tais músicas, oferecer uma representação geral e sintética delas. Todavia, o sopro sonoro, que em língua tupi se designa com o verbo pi, experiência e noção fundamentais a um só tempo, consiste num dos fios da meada a nos guiar, com precisão, através de todas estas civilizações musicais.

Ce livre parle de musique d’Amazonie. Dans cette immense région, les différences musicales sont si nombreuses et si sensibles qu’il est impossible de dessiner une image globale de ces musiques, d’en offrir une répresentation générale et synthétique. Toutefois, le souffle sonore, désigné par le verbe pi en langue tupi, à la fois expérience et notion fondamentales, constitue un des fils qui permettraient de voyager avec acuité parmi toutes ces civilisations musicales.




Sopro dos cantos, dos gritos rituais, do cenário xamanístico, mas também sopro dos instrumentos. Com efeito, em toda América do Sul, a música instrumental é, mais que qualquer coisa, mais que alhures, uma música de instrumentos de sopro: os aerofones, em solo, em duo, em orquestra, conformam a categoria de objetos sonoros que é, de longe, a mais rica e diversificada.

Souffle de chants, des cris rituels, de la scène chamanique, mais aussi souffle des instruments. En effet, dans toute l’Amérique du Sud, la musique instrumentale est plus que tout, plus qu’ailleurs, une musique d’instruments à vent : les aérophones, joués en solo, en duo, en orchestre, y constituent la catégorie d’objets sonores de loin la plus fournie et la plus diversifiée.



Escolhi enfocar, nesta exposição duma música amazônica, uma orquestra de instrumentos de sopro: as tule. Até os últimos anos as tule, grandes clarinetas de bambu, e as formações orquestrais que a elas se associam, permaneciam bem mal documentadas, quase inauditas. Todavia se as encontra em toda a Amazônia, e graças à diversidade das músicas que se toca nessas clarinetas, graças à diversidade das representações que produzem, nos oferecem elas uma via de acesso excelente e apaixonante por este universo sonoro amazônico.

J’ai choisi de centrer cette présentation d’une musique amazonienne sur un orchestre d’instruments à vent : les tule. Les tule, ces grandes clarinettes en bambou, et les formations orchestrales qui leur sont associées, restaient jusqu’à ces dernières années fort peu documentées, presque inconnues. Pourtant elles sont très répandues en Amazonie et, à travers les différences dans les répresentations qu’elles produisent, elles offrent une voie d’accès privilégiée et passionnante à cet univers sonore amazonien.




Para ser ainda mais preciso, esta obra trata do repertório dum conjunto de aldeias: as tule dos wayãpi do Alto Oiapoque, na Guiana Francesa. Com efeito, se trata duma música de beleza surpreendente, tanto quanto ao material acústico — que cativa desde a primeira audição — como quanto às sutilezas que a análise musicológica desvela. Compõe ela também um repertório vivo, ativo nos intercâmbios sociais, de modo que poderemos entrar na intimidade dessas aldeias através da música, vindo compreender os homens através desta respiração coletiva que nos trazem à escuta.

Plus précisément encore, cet ouvrage traite du répertoire d’un groupe de villages : les tule des Wayãpi du haut Oyapock, en Guyane. C’est en effet une musique d’une étonnante beauté, tant par la matière acoustique qui captive dès la première écoute que par les subtilités que révèle l’analyse musicologique. C’est aussi un répertoire vivant, actif dans les échanges sociaux, et nous pouvons ainsi entrer par la musique dans l’intimité de ces villages, en comprendre les hommes par cette respiration collective qu’ils donnent à entendre.

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As tule dos wayãpi são pequenas sessões musicais, as mais das vezes dançantes, que adornam a aldeia por uma noite, animando as reuniões de bebedeira. Atos de prazer coletivo, realização e reverberação dum lazer comunitário, foi ao menos assim que se me afiguraram elas por volta de 1980, no Alto Oiapoque, na Guiana Francesa.

Les tule wayãpi sont de petits concerts, le plus souvent dansés, qui animent les réunions de boisson, ornent le village le temps d’une soirée. Actes de plaisir collectif, réalisations et échos d’un loisir communautaire, c’est ainsi du moins qu’ils me sont apparus sur le haut Oyapock, en Guyane française, autour de 1980.




Essas seções são como que justapostas às reuniões de bebedeiras que, aliás, ocorrem com maior freqüência que tal suplemento musical. São outrossim imperfeitas, sua realização é incompleta, e esta imperfeição sistemática é reconhecida, discutida. Todavia, implicam questões tão importantes quanto a afirmação política dum grupo de parentesco, assuntos dum âmbito tão profundo quanto uma definição característica de humanidade.

Ces concerts sont comme ajoutés à la réunion de boisson, qui d’ailleurs se passe le plus souvent de ce supplément musical. Ils sont aussi imparfaits, incomplets dans leur exécution, et cette imperfection systématique est reconnue, discutée. Pourtant, ils portent des enjeux aussi importants que l’affirmation politique d’un groupe de parenté, des enjeux aussi démesurés que la définition distinctive d’une humanité.




Contradição duma música risível e grave ao mesmo tempo, divertida e de outra era; música que apresenta, a um só tempo, traços individuais e coletivos, parecendo não querer se afastar destes pólos, como se a mistura, a multiplicidade lhe fossem próprias. E talvez a característica fundamental das tule seja justamente afirmar e pensar as contradições, arranjar uma experiência física, sensível da contradição, no âmbito de uma dança e um sopro coletivos. Essa música orquestral oferece uma representação do mundo como variações individuais em torno dum centro heterogêneo, posto que unitário. As seções tomam parte da constituição da pessoa, integrando o indivíduo ao grupo, sem mascarar as contradições inerentes a estas transposições. Isto ocorre por ensejo duma música que se fundamenta numa alternância estrita entre solos e tutti, e duma organização orquestral que, por sua vez, se fundamenta numa interdependência direta entre os músicos, num entrecruzamento literal das partes orquestrais. Assim, a tule é, desde o princípio, um concerto, e o é na acepção primordial do termo, ou seja, a natureza e a intenção dessa música, o ‘porquê’ das tule é tocar e soar junto, é estar bem junto.

Contradiction d’une musique à la fois rieuse et grave, divertissante et d’un autre temps ; musique que présente à la fois les traits d’une musique individuelle et d’une musique collective, semblant ne pas vouloir s’affranchir de ces pôles, comme si la mixité, la multiplicité était sa nature. Et justement, l’enjeu crucial des tule est peut-être d’affirmer et de penser les contradictions, d’organiser une expérience physique, sensible, de la contradiction dans une danse et un souffle collectifs. Cette musique orchestrale offre une représentation du monde comme des variations individuelles autour d’un centre à la fois hétérogène et uni. Les concerts participent à la constitution de la personne, ils intègrent l’individu au groupe sans masquer les contradictions inhérentes à ces passages. Cela se réalise grâce à une musique fondée sur une alternance serrée entre solos et tutti, et grâce à une organisation orchestrale elle-même fondée sur une étroite interdépendence des musiciens, un entrecroisement littéral des parties orchestrales. Ainsi, un tule est d’abord un concert, et ceci au sens premier du terme, c’est-à-dire que la nature et l’intention de ette musique, le « pourquoi » des tule est de jouer et de sonner ensemble, d’être bien ensemble.

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As tule exprimem esta integração, mas sobretudo elas a conformam, lhe dão uma forma, à mesma maneira que o fazem, por exemplo, os trabalhos coletivos, ou melhor, as reuniões de bebedeiras, justo às quais aquelas se associam. Essa integração não releva uma norma imutável: é um arranjo cambiante, que se reconhece como tal, ao qual os homens oferecem um sopro sonoro, uma ressonância particular, à escuta e ao comentário. Os elementos estilísticos e o dinamismo formal significam a tendência e o status dessa integração, do arranjo político da aldeia, e duma visão de mundo. Estas músicas wayãpi, do ponto-de-vista do seu repertório e da sua execução, fazem parte dum sistema significante mas, sobretudo, não se contentam em exprimir: com os seus componentes de fixidez e variabilidade, essas músicas transformam os intercâmbios e a sua gramática. “A arte não reflete uma concepção do mundo, mas contribui, por meios específicos, para produzi-la” (Molino 1984:295). Mais que de obras musicais, estarei a falar aqui de músicas em ação.

Les tule expriment cette intégration, mais surtout, ils la tissent, ils lui donnent une forme au même titre, par exemple, que les travaux collectifs, ou, mieux, les réunions de boisson auxquelles justement ils sont associés. Cette intégration ne relève pas d’une norme immuable : c’est un jeu mouvant, recconue comme tel, auquel les hommes donnent un souffle sonore, une résonance particulière, qu’ils écoutent et commentent. Éléments stylistiques et dynamisme formel signifient une tendence et un état de cette intégration, des jeux politiques villageois et d’une vision du monde. Ces musiques wayãpi, du point de vue de leur répertoire et de leur exécution, font partie d’un système signifiant, mais surtout, elles ne se contentent pas de dire : avec leurs composantes de fixité et de variabilité, ces musiques transforment les échanges et leur grammaire.« L’art ne reflète pas une conception du monde, il contribue à la produire par des moyens spécifiques » (Molino 1984 : 295). Plus que d’œuvres musicales, je parlerai ici de musiques à l’œuvre.




Os conjuntos de clarinetas tule e o seu repertório estão entre as músicas mais vivas do Alto Oiapoque; no entanto, não representam mais que uma fração do conjunto da produção musical dos wayãpi. Para além de características sonoras assim tão particulares, o dinamismo dessa música certamente contribuiu para que eu, no princípio dos anos oitenta, me deixasse seduzir a ponto de fazer dela objeto de minha tese de doutoramento. A maioria das observações e reflexões que aqui se apresenta datam, portanto, de alguns anos. Mas as ambições que figuraram então na origem deste trabalho permanecem válidas hoje, e me levam, após uma re-elaboração do conjunto, a rematar a sua publicação, com o suporte de novas visitas aos meus amigos wayãpi.

Les ensembles de clarinettes tule et leur répertoire sont une des musiques les plus vivantes du haut Oyapock ; ils ne représentent néanmoins qu’une partie de l’ensemble de la production musicale wayãpi. Outre ses caractéristiques sonores si particulières, le dynamisme de cette musique contribua certainement à me séduire au début des années quatre-vingt. La plupart des observations et des réflexions présentées ici datent donc d’il y a quelques années. Mais les ambitions qui étaient alors à l’origine de ce travail restent aujourd’hui valables et me poussent à entreprendre sa publication après une réelaboration d’ensemble appuyée sur de nouvelles visites à mes amis wayãpi.




Trata-se, antes de tudo, de chamar a atenção para a música orquestral da Amazônia. Se são famosas as orquestras andinas de flautas de pã, as mais das vezes se ignora os conjuntos orquestrais das terras baixas, e este estudo específico se propõe a contribuir para afirmar e definir o seu lugar. Já foi dito e redito (Seeger 1979 e 1987; Beaudet 1982 e 1993) que a música das terras baixas da América do Sul é muito pouco conhecida: nenhum verdadeiro estudo geral, comparativo, e não mais que alguns estudos de caso, raros, porém de qualidade. Assim, esta monografia se situa é no âmbito desta ignorância ainda excessiva das músicas da Amazônia, em que se concede, conscientemente, um amplo espaço para a etnografia descritiva. Entretanto, estes mundos sonoros (Aytai 1985; Canzio 1992) não só chamam a atenção pela riqueza que desvelam, mas também pelo desafio que de pronto colocam para os etnomusicólogos: a impossibilidade de os compreender como sistemas autônomos, quer dizer, apenas a partir de parâmetros de ordem musical.

Il s’agit tout d’abord d’attirer l’attention sur la musique orchestrale d’Amazonie. Si les orchestres de flûtes de Pan de Andes sont célèbres, les ensembles instrumentaux des basses terres restent le plus souvent ignorés, et cette étude particulière se propose de contribuer à affirmer et définir leur place. Cela a été dit et redit (Seeger 1979 et 1987 ; Beaudet 1982 et 1993), la musique des basses terres d’Amérique du Sud est très peu connue : aucune véritable étude générale comparative, et seulement quelques études de cas, rares mais de qualité. C’est donc dans le cadre de cette ignorance encore beaucoup trop grande des musiques d’Amazonie que se situe cette monographie, qui accorde délibérément une large place à l’ethnographie descriptive. Pourtant, ces mondes sonores (Aytai 1985 ; Canzio 1992) sollicitent  l’attention non seulement par la richesse qu’ils dévoilent mais aussi par le défi qu’ils posent d’emblée à l’ethnomusicologue : l’impossibilité de les comprendre comme des systèmes autonomes, c’est-à-dire uniquement à partir des paramètres d’ordre musical.

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A segunda proposição é de ordem metodológica: virá ela a apresentar a música dum povo como um conjunto de jogos de diferenças e contrastes. Sob este ponto-de-vista, as tule se definem e interpretam, tanto quanto possível, através da correlação com outras produções musicais. Estas distinções não virão à luz, conforme veremos, a menos que se integre todos os componentes musicais: instrumentos, acústica, técnica de tocar, elementos formais, repertórios, atores, circunstâncias, representações correlatas...

La deuxième proposition est d’ordre méthodologique : elle revient à présenter la musique d’un peuple comme un ensemble de jeux différenciés et contrastants. De ce point de vue, les tule sont, autant que possible, définis et interprétés à travers une mise en relation avec les autres productions musicales. Ces distinctions, nous le verrons, ne peuvent être mises en lumière que par une intégration de toutes les composantes de la musique : instruments, acoustique, technique de jeu, éléments formels, répertoires, acteurs, circonstances, représentations associées...
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